Banco Comunitário da Cidade de Deus: uma oportunidade para o desenvolvimento socioeconômico local

Quarta-feira, 26 de Outubro

Estímulo do comércio local para o uso da moeda CDD(1).

"Bancos Comunitários são serviços financeiros solidários, em rede, de natureza associativa e comunitária, voltados para a geração de trabalho e renda na perspectiva de reorganização das economias locais, tendo por base os princípios da Economia Solidária" (2). Esta é a definição dada pelo primeiro banco comunitário de desenvolvimento que hoje é referência e responsável pela difusão desse sistema financeiro alternativo. Trata-se do Banco Palmas, desenvolvido por iniciativa da Associação de Moradores do Conjunto Palmeira, localizado em Fortaleza, Ceará.   

 

Na Cidade de Deus, a ideia do Banco Comunitário surgiu em 2005 por meio da participação de lideranças comunitárias no Congresso Internacional de Economia Solidária na Venezuela. A proposta de criação do Banco Comunitário da Cidade de Deus veio de representantes de movimentos sociais da comunidade juntamente com Paul Singer, professor aposentado da Faculdade de Economia e Administração da USP e titular naquela época da Secretaria Nacional de Economia Solidária, órgão vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego.

 

Após seis anos, é criado o Banco CDD por meio do Projeto Rio Eco Sol, da Secretaria Especial de Desenvolvimento Econômico Solidário da Prefeitura do Rio de Janeiro, que possibilitou o apoio financeiro, técnico e o esforço para o engajamento da população no desenvolvimento do projeto, componente primordial para que esse tipo de iniciativa tenha sucesso. "Foram realizados dez encontros de planejamento, todos abertos ao público (convidamos por e-mail, propaganda volante e de porta em porta no comércio).(...) Nestes encontros, o significado de ter um Banco Comunitário foi bastante debatido. Além disso, foi decidido qual seria o nome do banco, bem como o de sua moeda social, e indicadas pessoas para comporem seu conselho consultivo. Todo o processo foi democrático"(3), relata o Grupo Geração de Trabalho e Renda da Cidade de Deus, numa entrevista concedida ao Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida (COEP) na época da inauguração, em 2011.

 

O Banco Comunitário da Cidade de Deus foi pensado, planejado e constituído para promover o desenvolvimento humano e econômico do território, estimulando o consumo e a produção local”,  relata o Grupo de Geração de Trabalho e Renda na mesma entrevista concedida ao COEP. Para isso, “a criação de uma moeda faz-se necessária para que a riqueza produzida possa circular, de fato, dentro da comunidade, com a finalidade de fortalecer a economia local”(4). As cédulas CDD também representam a memória da Cidade de Deus já que nelas são estampadas os moradores que lutaram e fundaram o Banco na comunidade.

 

"As cédulas CDD também representam a memória da Cidade de Deus". 

 

Paralela à moeda oficial, cada CDD, válido somente na comunidade, equivale a um Real e somente comerciantes cadastrados podem realizar a troca da moeda CDD por Real. Além de estimular a formação de uma rede solidária entre produtores e consumidores, é possível também que haja novos empreendedores locais que normalmente, por não terem as comprovações exigidas, não conseguiriam financiamento nos bancos tradicionais.

 

Neste dois últimos anos, há um grupo de trabalho que está desenvolvendo o novo Plano Estratégico e de Reestruturação da Agência de Desenvolvimento Local (ACDD/DL) da Cidade de Deus do Comitê Comunitário, que envolve também a Reestruturação do Banco que é um projeto da Agência por meio da parceria entre ITERJ, Banco da Providência, BNDES, LAMSA e Farmaguinhos. Esse grupo identificou algumas dificuldades a serem superadas: a formação e gestão da carteira de crédito, bem como a dificuldade na circulação da moeda social e a manutenção e adaptação do imóvel.  

 

O fato é que a sustentabilidade no decorrer do tempo é um problema inerente a todos os bancos comunitários. E "como adquiri-la? Pode ser através de subsídios, de prestação de serviços, de cotizações diversas ou outros mecanismos"(5). Lucinha, presidente atual do Banco CDD, acredita que com o novo Plano Estratégico e de Reestruturação, a Instituição terá condições de conquistar recursos com o BNDES para a autossustentabilidade definitiva deste projeto. Sobre o assunto, Lucinha afirma: “O Banco Comunitário foi uma das instituições que em primeiro momento foi contemplado para esse plano de negócio. Então, se realmente esse recurso sair. Esse Banco será um dos melhores bancos porque aqui no Rio de Janeiro, nós somos cinco bancos(...) o Banco vai ter sustentabilidade. Eu acho que o Banco nunca mais para”.

 

"Lucinha, presidente atual do Banco CDD, acredita que com o novo Plano Estratégico e de Reestruturação, a Instituição terá condições de conquistar recursos com o BNDES para a autossustentabilidade definitiva deste projeto". 

 

Diante disso, é preciso que haja persistência e divulgação dentro da comunidadeo Banco quando foi inaugurado teve mídia, teve tudo, teve marketing, entendeu? Estamos precisando disso(…)”, relata Lucinha. Para isso, a conquista de recursos e a associação com outros bancos comunitários do país e outras parcerias é importante para que aconteçam ao longo do tempo resultados positivos na condição socioeconômica desse território, que por anos convive com diversas mazelas impostas pela conhecida desigualdade social brasileira.

 

 

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  1. Fotos retiradas do Banco de Desenvolvimento CDD. Disponível em: <https://www.facebook.com/edigard.werneck/photos>. Acesso em: 25 outubro 2016.
  2. Instituto Banco Palmas. O que é um banco comunitário. Disponível em <http://www.institutobancopalmas.org/o-que-e-um-banco-comunitario/>. Acesso em: 25 agosto 2016.
  3. Entrevista do Grupo Geração de Trabalho e Renda. Banco comunitário incentiva produção e consumo de bens na própria comunidade. Disponível em <http://www.escolaemacao.org.br/publico/apresentarConteudo.aspx?TP=3&CODIGO=C2011101914033397>. Acesso em: 24 agosto 2016.
  4. Moraes, J. et al. Função e Multiplicação de Bancos Comunitários. Revista Interdisciplinar de Gestão Social.   v.3, n.2,  p . 161-181, maio/ago . 2014. Disponível em <www.rigs.ufba.br/pdfs/RIGS_v3_n2_art9.pdf>. Acesso em: 24 agosto 2016.
  5. Instituto Banco Palmas de Desenvolvimento Socioeconomia Solidária. Bancos Comunitários de Desenvolvimento - Uma rede sob controle da comunidade. Fortaleza, 2006. Disponível em: <http://www.slideshare.net/bancopalmas/bancos-comunitrios-de-desenvolvimento?from=embed>. Acesso em: 24 agosto 2016.

     

     

     

 

 

 

 

 

 

 

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